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No dia seis de abril de 1567, e integrado num lote de mais de três dezenas de hospitais que foram entregues pela Coroa às Santas Casas, o Hospital do Espírito Santo foi incorporado na Misericórdia de Évora, que passou de imediato a assumir a gestão daquela importante valência.
Assim permaneceria durante mais de quatro séculos até ao processo da nacionalização dos hospitais, iniciado no final do ano de 1974, que levaria o Hospital a passar para o domínio do poder central, mais precisamente para a Direção Geral de Saúde e mais tarde para a Região de Saúde do Alentejo.
Entre os Séculos XVI e XVIII, na posse da Misericórdia, o Hospital transformou-se no principal destino institucionalizado para acolher os doentes pobres, os peregrinos, os forasteiros e os viandantes, servindo não só para curar e tratar doenças como de pousada para aqueles que caminhavam e que nele repousavam e/ou se alimentavam.
A partir de meados do Século XIX e até à nacionalização ocorrida no último quartel da centúria de XX, o Hospital transformar-se-ia por completo, acompanhado os constantes avanços da medicina, a crescente valorização e reputação dos profissionais de saúde, a modernização dos espaços e dos instrumentos e todas as políticas que modelaram o setor. Com esta evolução, a assistência hospitalar deixou progressivamente de ser mais direcionada para os pobres e viajantes, como até então, passando a ser disponibilizada a todos os que a ela recorressem.
Para esta realidade muito contribuiu o investimento contínuo da Misericórdia de Évora na unidade hospitalar, promovido pelas sucessivas Mesas Administrativas, que dentro das possibilidades vigentes, procuraram sempre catalisar uma quantidade significativa de verbas para manter sempre atualizados os recursos humanos, tecnológicos e científicos.
No dealbar do Século XXI seria erigido, em terrenos do antigo Asilo Ramalho Barahona, o novo Hospital da Misericórdia de Évora.
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Assistência Hospitalar
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Expostos
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Esmolas


As esmolas, independentemente da tipologia, da forma e da periodicidade, eram indubitavelmente uma das grandes preocupações da Misericórdia. Divulgaremos em seguida três das mais significativas:
Peças de Vestuário
Requeridas quase sempre por senhoras pobres, mendicantes ou viúvas, muitas vezes sobre o pretexto de terem a possibilidade de se apresentar condignamente nas missas, no Natal ou na Semana Santa. Estas ofertas eram, nalgumas ocasiões, patrocinadas por beneméritas abastadas que deixavam como legado pio à Misericórdia significativas quantias “para vestir” os necessitados nos dias Santos.
Em busca das benesses decorrentes deste importante ato assistencial, todos os anos centenas de desfavorecidos candidatavam-se a esta generosa oferta. Infelizmente, por manifesta falta de recursos, nem todos poderiam ser contemplados.


Géneros Alimentícios
Os géneros alimentícios eram distribuídos aos doentes pobres, quer aos internados nas unidades hospitalares da Instituição, quer aos “domiciliados”. Esta dieta gratuita era, na generalidade, prescrita pelo corpo médico da Misericórdia, sendo constituída regularmente por alimentos com elevado valor nutritivo como pão, galinhas, ovos ou carneiros, que ao serem assimilados pelos debilitados organismos dos assistidos, acalmariam as suas necessidades mais prementes.
Uma parte substancial destes recursos encontravam-se no interior do hospital, nos quintais da Misericórdia ou nas suas dependências anexas. Os carneiros, por exemplo, que ostentavam nos seus chocalhos os ferros da Casa, eram criados num dos pátios exteriores do Hospital do Espírito Santo.


Dinheiro
As esmolas em dinheiro eram muito comuns, sendo oferecidas aleatoriamente aos pobres, muitas vezes em associação com alguns géneros alimentícios de primeira necessidade (como o pão) nas mais diversas ocasiões.
Algumas esmolas pecuniárias tinham uma periodicidade definida, como por exemplo a da “porta” da Misericórdia, que era distribuída na porta da Casa aos Domingos ou a das “quadrelas”, entregue semanalmente à Quarta-feira.
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Menino Jesus Salvador do Mundo
Escultura, Séc. XVII (1675-1700)


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Dotes
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Presos
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Esmolas
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Expostos


Os expostos, deixados nas “rodas” por aqueles que não se sentiam em condições para os criar, ficavam sob a responsabilidade da Misericórdia que pagava a amas e a “famílias de acolhimento” para suprir essa lacuna.
Alguns desses expostos, ao serem “entregues” na roda pelos progenitores, vinham acompanhados de sinais identificativos que permitiram às famílias de origem comprovar a sua ligação parental e reconhecê-los facilmente no futuro.
Como, infelizmente, todos os sinais de expostos da Misericórdia de Évora se perderam ou estão em parte incerta, estabeleceu-se uma parceria com a Misericórdia de Lisboa que, gentilmente, cedeu os sinais que aqui divulgamos.
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Dotes


Se ao homem pobre em idade para casar era exigido o exercício de uma profissão, à mulher em iguais circunstâncias impunha-se um dote, apenas assim seria possível reunir o mínimo indispensável para avançar para a constituição de uma nova célula familiar. Os dotes de casamento atribuídos pela Misericórdia, destinados às adolescentes pobres e órfãs, eram assim importantíssimos, sendo determinantes para as pretensões de muitas candidatas, que assim asseguravam um futuro melhor. De entre as diferentes formas e tipologias de dotes, apresentaremos neste núcleo museológico duas das mais vulgares: cereais e dinheiro.


Cereais
A Misericórdia de Évora era administradora de um vastíssimo património rústico. Os cereais depositados no Celeiro da Irmandade eram fruto do remanescente que era extraído de algumas herdades da Casa, que ao serem aforadas a terceiros, possibilitavam um rendimento extra pago neste tipo de géneros.
Os cereais amealhados pela Santa Casa eram depois aplicados nos mais diversos fins, entre os quais, os dotes de casamento para as senhoras órfãs e pobres.


Dinheiro
Os dotes em dinheiro eram igualmente comuns. Neste caso, tal como o próprio nome indica, às dotadas assistidas era atribuída um valor pecuniário para servir de dote e garantir o ambicionado casamento.
A atribuição dos dotes anuais era o resultado de uma avaliação prévia. Depois de consultadas todas as candidaturas entregues, a Mesa Administrativa tomava a sua decisão e, através dos seus colaboradores, anunciava-a às contempladas.
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As Boticas ou Farmácias da Misericórdia
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As "boticas" das Misericórdias (mais tarde designadas e adaptadas como farmácias) eram determinantes para o sucesso da obra de Curar os Enfermos.
Naqueles espaços, muitas vezes exíguos e recatados, eram preparados os medicamentos, unguentos e mezinhas para administrar gratuitamente aos doentes assistidos na Casa. Os enfermos de fora, mediante receita e após o respetivo pagamento, que revertia para os cofres da Misericórdia, poderiam igualmente usufruir daquele serviço.
O profissional responsável pela elaboração dos preparados e pela manutenção da botica eram os boticários. Contratados pela Misericórdia de Évora, estes funcionários, para além de se dedicarem à concepção de remédios e de drogas para os doentes, tinham ainda obrigações ao nível da gestão, da administração e da inventariação da botica, devendo prestar regularmente, e detalhadamente, contas do funcionamento da mesma à Mesa Administrativa.
A Botica da Misericórdia de Évora, que historicamente “deambulou“entre o interior do hospital e outros pontos da cidade, era um espaço essencialmente funcional, onde convergiam todo o tipo de recipientes e instrumentos aplicados nesta arte. De entre uma vasta panóplia de peças produzidas em diversos materiais como: barro, cobre, estanho, arame, aço ou cristais, destacavam-se os potes de faiança, ou de vidro, onde eram depositados, identificados e conservados os medicamentos.
Os almofarizes, construídos nos mais diversos materiais, como barro, bronze ou mármore, eram outras das peças indispensáveis ao bom funcionamento de uma botica, sendo utilizados para o esmagamento, moagem e mistura de ingredientes.
Nos últimos dois séculos, a antiga “botica” foi transformada em farmácia, modernizando-se, especializando-se e diversificando a oferta disponível. Contudo, e apesar deste avanço tecnológico/científico, a Farmácia da Misericórdia, e os profissionais que nela laboram, continuam a contribuir para a causa que sempre fez parte da sua missão mais elementar, a de “curar os enfermos”.
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Obras de Saúde


As “obras de saúde”, em particular as resultantes da assistência médica, hospitalar, cirúrgica e de botica, foram as mais procuradas pelos beneficiários ao longo dos anos, razão pela qual, a Misericórdia de Évora sempre dedicou uma atenção particular a estas práticas assistenciais.
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São João de Deus
Escultura
Século XVIII
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Assistência Hospitalar


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Boticas / Farmácias
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Escultura
Século XVIII
Doada à Misericórdia de Évora pelo Dr. Manuel Álvares Cidade
Data provável da execução e doação, 1700-1723



A imagem de vulto de São João de Deus, produzida em madeira de castanho, dourada e policromada, apresenta o santo vestido com um hábito com capuz, ajustado à cintura e repleto de escapolários. Na mão direita, segura uma cruz processional e na esquerda, posicionada num plano ligeiramente inferior à anterior, uma romã.
É bastante provável que a imagem original tivesse ainda uma coroa de espinhos, atributo tradicional do santo, que entretanto terá desaparecido.
João Cidade nasceu no dia oito de Março de 1495, em Montemor-o-Novo, e faleceu precisamente no mesmo dia e mês, do ano de 1550, na cidade de Granada.
Depois de um percurso algo errante, em 1538, ao sensibilizar-se com um sermão proferido por João de Ávila, arrependeu-se do seu passado, largou tudo e passou a dedicar a sua vida à religião e à assistência ao próximo.
Em 1538, fundaria em Granada, a cidade que o acolheu, um hospital para benefício dos mais necessitados, onde seriam internados, sobretudo pobres, sem-abrigo, doentes mentais ou portadores de doença incurável.
Os ideais e modelos hospitalares preconizados por João de Deus seriam amplamente difundidos e disseminados nas décadas que se seguiram à sua morte, o seu excepcional legado e reconhecimento, levá-lo-iam, postumamente, à beatificação e à canonização.
São João de Deus tornar-se-ia assim no padroeiro dos hospitais, dos doentes e dos enfermos.


O Hospital da Misericórdia e assistência hospitalar


Esta referência remete-nos imediatamente para o Hospital da Misericórdia e para a importância da assistência hospitalar como uma das grandes missões da Misericórdia.
Em 1567, o Cardeal D. Henrique, na qualidade de regente do Reino, liderou o processo de transferência do Hospital do Espírito Santo para a posse da Misericórdia de Évora.
Desde essa data, e durante mais de quatro séculos, competiu à Misericórdia de Évora a gestão da mais importante unidade hospitalar da região.
O Hospital do Espírito Santo, também conhecido em diversos períodos da História, como “Hospital da Misericórdia”, desempenhou um papel fulcral na assistência aos doentes (sobretudo os mais pobres, os carenciados ou os desamparados), aos peregrinos e à população em geral.
Em 1976, esta casa de assistência, por via da “nacionalização dos hospitais” seria “entregue” à tutela do Estado, onde ainda hoje permanece.
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São João de Deus
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Bandeira de Nossa Senhora da Misericórdia
Pintura, Séc. XVII


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Obras Espirituais


As obras espirituais, num sentido muito lato, podem ser entendidas como aquelas que a Misericórdia promove, ou desenvolve, para amenizar as necessidades espirituais dos contemplados.
A principal, e mais visível, obra espiritual diligenciada pela Misericórdia de Évora foi, sem sombra de dúvidas, a sétima: Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos.
Rezar pela alma dos defuntos, foi aliás, uma prática recorrente e bastante importante para a Misericórdia, que chegou a contratar capelães nos Séculos XVI, XVII e XVIIII, exclusivamente para esta finalidade. Aqueles que pereciam, sobretudo os mais ricos, e cuja alma se encontrava no Purgatório, necessitavam de orações, missas e suplicações sistemáticas, para aproximar a sua alma do Céu e, concordantemente, lhes abreviar a estadia naquele lugar inóspito.
A execução destas necessidades espirituais permitiria à Misericórdia de Évora colher enormes benefícios materiais, na medida em que, antes de morrer, uma boa parte dos legatários alocava propriedades à Misericórdia para garantir o cumprimento destas obrigações. Era assim, dos rendimentos resultantes desse património, que se deveria pagar aos capelães para cerimónias litúrgicas que poderiam ir desde a simples missa de 7º dia, a orações “para todos o sempre” ou “enquanto o mundo durar”, como antigamente se proclamava.
Mas não só os ricos eram assistidos espiritualmente pela Misericórdia na hora da morte, também os pobres, ou os “simples” o eram sendo-lhes concedidos enterramentos gratuitos e um conjunto de orações e súplicas a eles associados.
Apesar desta ser a mais preeminente, todas as outras obras espirituais têm sido, época a época, executadas pela Misericórdia de Évora e expressadas através de diversas manifestações litúrgicas, do processo catequético, das procissões, da administração de sacramentos ou da iconografia.
Como exemplos desta invocação espiritual da Misericórdia apresentaremos três esculturas de inegável valor artístico: Menino Jesus Salvador do Mundo, Piedade e São José e o Menino.
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São João de Deus
Escultura, Séc. XVIII (1700-1723)


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São José com o Menino
Escultura, Séc. XVII (1676-1700)


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A Assistência aos Presos


Outra das grandes preocupações da Misericórdia de Évora era a assistência aos presos. Foi a Santa Casa que durante séculos contribuiu para a sua alimentação, vestuário e lhes prestou, através dos seus capelães, assistência moral e espiritual e que, não raras vezes, custeou ainda a sua libertação ou Livramento, cumprindo assim uma das suas obras de Misericórdia: Remir os Cativos.
Nas alturas festivas, como a Semana Santa, era ainda habitual oferecer-se um “bodo aos presos”, que consistia numa refeição melhorada e reforçada.
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Nossa Senhora da Piedade
Escultura; Séc. XVIII


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Nossa Senhora da Piedade
Escultura
Séc. XVIII
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Menino Jesus Salvador do Mundo
Escultura
Séc. XVII (1675-1700)


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São José com o Menino
Escultura
Séc. XVII (1676-1700)
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Nossa Senhora da Piedade
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Escultura
Séc. XVIII
Transferida, em 1874, do Convento de Santa Catarina de Sena para a Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Évora.


O grupo escultórico da Piedade, transferido do Convento de Santa Catarina de Sena para a Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Évora em 1874, é composto por uma imagem de roca (Virgem) e por uma imagem de vulto (Cristo morto).
Os adereços integrantes do grupo escultórico terão sido substituídos algumas vezes desde a sua conceção original no Século XVIII.
A Virgem ostenta um esplendor em prata, um manto de seda azul, um véu sobre o rosto, duas toucas, um vestido, um saiote e uma camisa interior. A imagem de Cristo encontra-se protegida por um véu.


A pietà, ou Piedade, é um tema da arte cristã onde surge representada a Virgem Maria com o corpo de Jesus morto nos braços, pouco tempo depois da sua crucificação.
As primeiras Piedades terão surgido na Alemanha, provavelmente em finais do Século XIII. Nas centúrias seguintes, através de várias expressões e manifestações artísticas, como a escultura ou a pintura, estas representações expandem-se um pouco por toda a Europa.
A mais famosa Pietà é da autoria de Michelangelo e pode ser visitada na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Esta prodigiosa escultura em mármore foi finalizada pelo artista em 1499, precisamente o ano em que seria fundada a Misericórdia de Évora.



O Culto dos Mortos para a Misericórdia


Enterrar os mortos é uma das sete Obras de Misericórdia corporais, sendo esta, uma obrigação da Irmandade desde a sua fundação.
Seguindo um ritual preciso, bem descrito no Compromisso, os Irmãos da Misericórdia devem acompanhar regularmente os mortos até á sua última morada, fazendo-o tanto com os membros da Confraria, como com os pobres e com todas aqueles que, independentemente do género, classe ou ofício, requisitam os seus préstimos.
Esta peça em particular representa, ainda, a transferência de peças de elevado valor artístico dos antigos conventos para outros locais da cidade de Évora após a extinção das Ordens Religiosas.
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São José com o Menino
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Escultura
Séc. XVII (1676-1700)
Madeira de castanho (entalhada, policromada e dourada)



Imagem de São José, em madeira de castanho, entalhada, policromada e dourada, onde o mesmo surge representado com barbas e cabelos longos.
São José ostenta uma túnica comprida de cor verde, com pregas verticais, apertada por uma cinta e envolvida por um manto que, para além de sugerir um certo movimento (através da flexão da perna direita) tem ainda a função de aconchegar o Menino, que se encontra sentado sobre a sua mão esquerda.
Na mão direita, elevada a meia altura, estaria originalmente uma vara, entretanto desaparecida, tal como a túnica branca que cobria o menino.


Ao segurar o menino nos braços, São José representa simbolicamente a paternidade, o amor, o cuidado, a educação e a dedicação aos filhos. São José cumpriu escrupulosamente a missão que lhe foi confiada por Deus, assumiu e assistiu Maria na sua gravidez, cuidou, amou e protegeu paternalmente Jesus.
A imagem de São José é-nos retratada a olhar para baixo, não por acaso, mas sim porque São José é representado como o pai “terreno” de Jesus Cristo, ou o “pai da Terra” que fica “em baixo”, em contraste com Deus, o ”Pai do Céu e do Universo”.
As evidências apontam que esta reprodução já existira em 1714, altura em que no inventário de “todos os bens” do Hospital da Misericórdia de Évora, é identificada “uma imagem do patriarca São José com o Menino nas mãos”.
A aludida imagem terá sido incorporada posteriormente na Igreja do Espírito Santo, onde terá permanecido até 1911, altura em que aquele templo foi profanado.
Para além da Igreja da Misericórdia, onde se encontrava imediatamente antes de integrar o Núcleo Museológico, a imagem passou ainda pelo Recolhimento Ramalho-Barahona.


O Auxílio dos desamparados e dos expostos


São José é o padroeiro dos trabalhadores e da família.
Os trabalhadores, totalmente dependentes do trabalho sazonal, eram daqueles que mais tinham necessidade de recorrer ao auxílio constante da Misericórdia.
Muitas vezes bastava a morte de um dos cônjuges ou a falta pontual de trabalho, para levar determinada família para a pobreza extrema ou para o limiar dela.
A função da Misericórdia era pois prestar auxílio a estes desafortunados, acolhendo-os, reconfortando-os, dando-lhes pão, cama e tratamentos para acalmar o seu sofrimento, tanto a si como à sua família.
São José, ao acolher o menino nos seus braços, representa simbolicamente a proteção dos menores, da família ou da sagrada família.
Podemos fazer um paralelismo entre esta representação e o acolhimento, alimentação e amparo que a Misericórdia propiciou a milhares de enjeitados ao longo dos séculos.


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Escultura
Séc. XVII (1675-1700)
Peça doada à Misericórdia, em 1909, por D. Adelaide Assunção Martins


Imagem de vulto, em madeira de castanho, policromada, onde está representado o Menino Jesus Salvador do Mundo, sentado numa cadeira de braços e empunhando, como atributo da imagem, um globo, de prata e cristal de rocha, na sua mão esquerda. A mão direita, em posição elevada em relação à anterior, realça o ângulo produzido entre os dedos polegar, indicador e médio, sugerindo o sinal da bênção.
A cabeça e o rosto surgem-nos, intencionalmente, desproporcionados em relação ao restante corpo, a cabeleira é farta e a boca esboça um sorriso.
A coroa em prata, encontra-se fechada, ostentando um aro decorado com folhas de loureiro e um corpo vasado, seguindo os limites das volutas que enquadram uma flor de cinco pétalas. No topo, um anel , serve de base para uma cruz formada por ornatos fitomórficos.
As sandálias, de prata rasa, com sola de bico, encontram-se igualmente ornamentadas com relevos de ornatos fitomórficos.
Nota-se, uma policromia algo diferenciada nos membros superiores e no rosto que nos indicam uma intervenção posterior


Salvador do Mundo, Salvator Mundi, ou Menino Jesus Salvador do Mundo, é um tema iconográfico de Jesus Cristo, onde o mesmo é representado no acto de abençoar (através do gesto da mão direita) e na posse de um globo, quase sempre encimado por uma cruz (simbolicamente apresentado na mão esquerda).
Para além da escultura, o Menino Jesus Salvador do Mundo, foi ainda representado noutras manifestações artísticas, como a pintura, sendo um dos exemplos mais notáveis, o de Josefa de Óbidos, que em 1673, pintou este motivo em óleo sobre tela, que ainda hoje podemos contemplar na Igreja Matriz de Cascais.



A Importância dos Benfeitores e dos Beneméritos para a Misericórdia


Esta peça, pelas suas características e singularidade é uma das mais fascinantes do espólio pertencente ao Núcleo Museológico.
A mesma, chegou à posse da Misericórdia através de uma doação e encontra-se aqui exposta, não só pela sua beleza intrínseca, mas igualmente para demonstrar a importância que os benfeitores e beneméritos tiveram ao longo da História da Instituição.
O património rústico, urbano e artístico, doado por terceiros à Misericórdia durante os 520 anos da sua existência, foi determinante para a manutenção da saúde financeira da Instituição e para garantir a sua prática solidária e assistencial ao longo dos séculos.
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Menino Jesus Salvador do Mundo
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Esta bandeira, suportada por uma prolongada haste de pau-santo e sobrelevada por uma cruz, é composta por duas molduras distintas: a Nossa Senhora da Misericórdia, também conhecida como “Nossa Senhora do Manto” (no lado anverso) e a Lamentação (no reverso).
A moldura de Nossa Senhora da Misericórdia, que aqui expomos, e cujo motivo foi pintado a óleo sobre tela, destaca, como é usual na iconografia do tema, a Virgem coroada de mãos postas, a acolher os fiéis debaixo do seu longo manto azul como sinal de amparo e de proteção. De entre a multidão, onde são representadas todas as classes sociais, destacam-se, neste caso específico, um papa e Frei Luís de Contreiras (com hábito dominicano) e do lado oposto o monarca e representantes da nobreza e do poder real. Noutro plano, ao centro, temos ainda representados os doentes e as crianças desamparadas.


Um dos símbolos máximos destas Irmandades, a Bandeira de Nossa Senhora da Misericórdia, ou Senhora do Manto, ou, ainda Mater Omnum, é uma representação da Virgem a amparar os fiéis (de todos os estratos e categorias sociais) com o seu manto protetor.
As Misericórdias adotaram-nas, desde a primeira hora, tornando-as, simbolicamente, no seu máximo estandarte e proclamando-as como as insígnias da proteção real e celesteal.
As Bandeiras Reais das Misericórdias, como seriam inicialmente conhecidas, rapidamente assumiram o seu papel de destaque em todas as Misericórdias, sobretudo naquelas que foram criadas entre os Séculos XV, XVI e XVII e que rapidamente se disseminaram por todo o reino.
Ao mesmo tempo que as Misericórdias se expandiam pelos territórios nacional e metropolitano, também as representações da Virgem do Manto acompanhavam esse crescimento, adornando bandeiras, baixos-relevos, retábulos, iluminuras e outras recreações artísticas.


A utilização constante das Bandeiras das Misericórdias
Referimos anteriormente que as Bandeiras da Misericórdias, ou Senhoras do Manto, se disseminaram rapidamente pelo território português desde a fundação das Misericórdias.
A bandeira de Nossa Senhora da Misericórdia, que aqui apresentamos não será, todavia, a primeira bandeira ao serviço da Santa Casa de Évora, mas sim, uma reprodução do Século XVII.
Uma das razões que fundamentam esta premissa é, precisamente, o facto das Bandeiras da Misericórdia originais, que muitas vezes já apresentavam fragilidades nas suas pinturas, estarem permanentemente sujeitas a adversidades resultantes de condições climatéricas adversas ou de imprecisos manuseamentos.
Na verdade, estas bandeiras, que eram regularmente utilizadas em todo o tipo de manifestações de culto, como procissões ou enterros de irmãos, estavam permanentemente expostas a intempéries, humidades, fungos, calor e luminosidade excessivos, das quais resultavam, por exemplo, e de entre uma vasta panóplia de patologias associadas, descolorações, deformações e acumulações de porosidades.
Estes motivos justificam assim o facto de, na maior parte dos casos, as bandeiras das Misericórdias terem sido repintadas e/ou substituídas por diversas vezes ao longo da sua História.
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Nossa Senhora da Misericórdia
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As Obras de Misericórdia


As Obras de Misericórdia, já identificadas no Evangelho e em diversos textos teológicos e litúrgicos antigos, devem ser entendidas, antes de mais, como uma forma de praticar o culto e louvar a Deus.
No período tardo-medieval, que antecedeu a fundação das Misericórdias portuguesas, muitos fiéis leigos, individualmente, ou em grupo, passaram a desenvolver ações de caridade, mais ou menos concertadas, em torno da assistência aos mais necessitados.
Seria neste contexto, e nesta nova tendência de manifestação de Fé, mais próxima de Cristo, que nasceriam inúmeras confrarias um pouco por toda a Europa, tanto no espaço rural como no urbano, que se dedicavam à prática de obras de devoção e de misericórdia para com o “próximo”.
Quando, no final do Século XV são fundadas as primeiras Misericórdias, por iniciativa de D. Leonor e com alto patrocínio do seu irmão, o Rei D. Manuel, estas vão tendencialmente instalar-se em pequenas capelas ou claustros de igrejas, no caso de Évora, na Capela de São Joãozinho, anexa ao Convento de São Francisco.
Naqueles espaços, muitas vezes exíguos na sua génese, os irmãos reuniam-se para o culto e era dali que, de uma forma organizada, partiam para a execução das obras de misericórdia pela cidade.
Em 1516, no primeiro Compromisso da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que serviria de modelo para as outras Irmandades, incluindo a de Évora, seriam identificadas as catorze Obras de Misericórdia:
Espirituais - ensinar os simples; dar bom conselho a quem o pede; castigar com caridade quem errou; consolar os tristes desconsolados; perdoar a quem errou; sofrer as injúrias com paciência; rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos.
Corporais - remir os cativos e visitar os presos; curar os enfermos; cobrir os nus; dar de comer aos famintos; dar de beber a quem tem sede; dar pousada aos peregrinos e pobres; enterrar os finados.
Contrariamente àquilo que se exercia na generalidade das confrarias congéneres europeias, onde se praticavam uma ou duas obras, as Misericórdias portuguesas trariam consigo uma inovação sem precedentes, que poderemos considerar como totalizante, por enquadrarem na sua prática assistencial todas as obras ao mesmo tempo.
A Misericórdia de Évora tem assim, desde a sua fundação em 1499, procurado suprir, aliviar ou minorar, as necessidades espirituais e corporais de todos aqueles que a ela têm recorrido ao longo dos mais de cinco séculos da sua existência.
Nesta sala expositiva encontraremos alguns exemplos práticos da ação desenvolvida pela Misericórdia nestas áreas, quer na vertente espiritual, aqui representada pela iconografia, quer na vertente corporal, que para melhor compreensão surge subdividida em “obras de saúde” e “outras obras de assistência”.
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Despesas com um preso,m 1867.
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Livro do pagamento às amas pela assistência aos expostos, 1814
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Esmola concedida pela Misericórdia, 1611.
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